17.7.15

Chapter 1 - Inabalável


Demetria Devonne Lovato'
   Apoiei minha cabeça na janela do carro, observando os pingos de chuva deslizarem pelo vidro. Eu estava cansada, e esforçava-me o máximo para não fechar meus olhos e cair no sono ali mesmo. Voltávamos de mais um dia de trabalho, e as vezes trabalhar na secretaria de um famoso consultório médico realmente era cansativo. 
   Joseph hesitou o carro, quando o semáforo ficou vermelho.
   - Eu posso te fazer uma pergunta? - Joseph de repente perguntou, fazendo-me franzir levemente minhas sobrancelhas. - Uma pergunta um pouco estúpida, mas que de repente veio em minha mente... - explicou ele, então virando-se para mim.
   - Claro, amor. - apenas respondi, assentindo levemente com a cabeça, mesmo eu achando um tanto estranho ele me perguntar aquilo. 
   - Hum, o.k. - Joseph pigarreou, e prosseguiu. - Se um dia você entrasse em coma, em uma coma profunda mesmo, e sua vida somente dependesse agora de uma maquininha... que forçasse seu coração a bater, o que preferiria? Que deixassem essa maquininha ligada, mesmo sabendo que as chances de você se recuperar fossem quase impossível, ou que a desligassem? 
   Eu automaticamente arqueei as minhas sobrancelhas, surpreendendo-me totalmente com tal pergunta. No entanto, assim que Joseph percebeu a minha reação, ele pareceu sentir-se constrangido, pois forçou um sorriso fraco.
   - Eu sei que é uma pergunta bastante trágica... - ele fez um careta, e depois soltou uma riso debochado. - Quer saber, vamos esquecer que eu te fiz essa pergunta. 
   - Deixe eu pensar por um momento. - o interrompi, ignorando completamente o que ele havia acabado de falar.
   Tentei analisar sua pergunta, tentando pensar numa resposta sensata para aquilo, mas logo novamente franzi as sobrancelhas.
   - Eu não sei... acho que preferiria que a máquina permanecesse ligada, sei lá. - respondi, com certa inseguridade. Joseph, que ainda me encarava, logo soltara uma risada sem graça.
   - Eu não sei por que eu fico fazendo essas perguntas bestas. - afirmara ele, com o tom um pouco envergonhado, e quando o sinal finalmente indicou verde o carro voltou a andar. - Sabe, coisas de um louco mesmo...
   - Você não é louco. - queixei-me, contrariando-o. No entanto, ele logo lançou um olhar desconfiado para mim, o que me fez rolar os olhos. - Está bem, talvez um pouquinho... Mas isso não me importa, porque eu o amo do jeito louquinho que é... - afirmei, e instantaneamente um sorriso formou-se em meus lábios. Virei para Joseph e percebi que ele também esboçava um sorriso de lado.
   - Eu ainda não acredito que daqui a alguns dias você será minha esposa. - comentou ele, o que me fez gargalhar baixo. - Sério, eu só posso ser o cara mais sortudo do mundo... Eu te amo, Demi, muito mesmo! Por favor, não me largue quando estivermos no altar, como a Rachel fez, no primeiro episódio de Friends...
   - Meu Deus! - eu exclamei, e então apenas bufei alto. - Eu vou fingir que eu não escutei isso, tudo bem? - avisei, fingindo estar irritada. Porém logo comecei a rir. - Eu também te amo, Joe. - afirmei aquilo, sendo totalmente sincera. 
   - Hum, mas qual a sua resposta? - indaguei, voltando a comentar sobre sua pergunta. - Você gostaria que a máquina permanecesse ligada ou não? - ele suspirou fundo, antes de finalmente responder.
   - Eu sinceramente acho que preferiria, hum, que a máquina desligasse. - respondera ele. Não pude deixar de me surpreender com a sua resposta, ainda mais do que a própria pergunta.
   - Sério? Mas... então você preferiria morrer?
   - Só acho que, entre ficar praticamente morto e morrer, preferiria que desligassem essa máquina e então acabassem com tudo aquilo. - respondeu ele, e depois sorriu fraco, explicando-se. - Sei lá, acho que pior do que morrer é dar falsas esperança para as pessoas que eu amo, que esperam que eu volte mesmo sabendo lá no fundo que realmente não vou voltar... - ele dizia aquilo de maneira tão calma e relaxada que realmente fazia-me ficar surpresa.
   De repente, um silêncio estranho surgiu de repente. Realmente estava impressionada com a sua resposta. E depois de mais uns segundos, finalmente resolvi quebrá-lo.
   - Resposta sensata. - afirmei, balançado levemente a cabeça .
   - Você perguntou, eu respondi. - disse ele, num tom inocente. - Eu vou parar rapidinho no mercadinho aqui, pode ser? - avisou ele, cessando totalmente aquele estranha conversa. Eu assenti, sorrindo fraco.
    Com isso, ele virou uma esquina e parou o carro, estacionando na frente do pequeno mercado.
   - Hum, eu vou até lá. - ofereci-me. Virei então para Joseph. Ele balançou os ombros de leve, mostrando indiferença em relação àquilo.
   - Certo. Ficarei te esperando aqui, então. - avisou ele. Ele falou para mim o que precisava que eu comprasse e entregou-me o dinheiro necessário para a compra. Sai do carro, fechando a porta atrás de mim.
~

   Assim que peguei a última coisa que Joseph havia mandado, um pacote de feijão, fui até o caixa, e coloquei a minha cesta em cima do balcão. Enquanto a senhora calculava a minha compra, fui pensando o quão engraçado era o fato de Joe saber mais do que faltava na cozinha do que eu mesma. Soltei uma risada fraca. 
   Uma coisa que eu realmente amava em Joseph era que, diferente de muitos homens que eu já havia conhecido, ele simplesmente adorava cozinhar, diferente de mim. Sorri de lado. Era como se ele me acrescentasse, porque, afinal, não tínhamos realmente os mesmos gostos, principalmente hobbies, mas do mesmo jeito sempre nos entendíamos, cada um fazendo a sua parte. 
   E era isso o que a maioria das pessoas que eu conhecia, inclusive meus pais, admiravam em mim e no Joseph. Éramos o casal perfeito, segundo eles. E, no fundo, eu também concordava com eles.
   - Obrigada e volte sempre. - disse a senhora do caixa, assim que paguei a conta, sorrindo gentilmente. Retribui o sorriso, pegando minhas compras, e sai do mercadinho.
   No entanto, no mesmo momento em que saia, de repente escutei um estrondo vindo de fora. Arregalei os olhos, assustada com tal barulho e, ao ver a imagem de meu noivo sendo prensado na parede por aquele veículo enorme que havia acabado de aparecer com alta velocidade, senti o desespero tomar conta de mim.
   Coloquei a mão em minha boca, e só depois percebi que estava correndo rapidamente na direção do mesmo, aterrorizada com o que havia acabado de presenciar. 
   Cheguei perto de onde havia acontecido o acidente, e ao perceber que nada se mexia em meio a eles comecei a entrar em pânico, gritando alto, e nem sequer me importando em me acalmar. 
   O carro de Joseph havia sido esmagado junto a ele bem na minha frente, naquele exato momento!
   Abaixei-me, tentando achar-o em meio aos destroços, já totalmente fora de mim. No entanto, logo senti alguém me puxar para trás. A senhora que havia me atendido também parecia bastante abalada.
   - O que você está fazendo? - perguntei, berrando, debatendo-me para soltar-me daquela senhora, que segurava meu braço com força. - Me solta! - eu exigi, balançando o meu braço de maneira frenética, e a cada minuto eu ficava mais desesperada.
    E ao ver que ela sequer se mexera, eu bufei alto.
    - Joe está lá em algum lugar, eu preciso achá-lo! - exclamava tudo aquilo com certa agressividade.
   Mas eu não importava com aquilo, importava com nada naquele momento. Só me importava com Joseph, e que ele acabara de ser esmurrado por outro carro e estava em algum lugar no meio daqueles destroços. 
   Tinha que estar!
   - Querida, a ambulância já está vindo...
   - ME LARGA! - berrei novamente, de maneira escandalosa. - ME LARGA! - gritava, chacoalhando meus braços com força, mas de nada adiantava. - ME SOLTA, EU PRECISO ACHAR ELE! - repetia, tentando fazê-la soltar meu braço, gritando até perder a minha voz. 
    E então, de repente, senti todo aquele pânico esvoaçar por um breve momento.
    Minha cabeça começou a processar tudo o que havia acontecido. O choque agora havia sido substituído pelo choro alto. 
   Joseph não poderia estar morto, não agora...
   - Me solta... por favor... - dessa vez eu murmurei, e ao ver que ela enfim me soltara, senti meu corpo desabar. Agachei-me no chão, colocando as mãos em meu rosto e deixando que as lágrimas dominassem o meu rosto, junto com a chuva que me molhava toda.
    Ele não poderia ter partido, simplesmente não poderia.